Esquadros

No limite da palavra, verso;

entre muros e concreto, pranto;

o mínimo da vida, canto;

sonhos de céu azul, preso;

Na crise de riso, beleza;

nos passos curtos, acalento;

em dias passados, desencanto;

entre seus dedos, fortaleza;

Crianças nas trincheiras, lamentam;

todos os goles e tragos, vícios;

a necessidade de seus beijos, etílicos;

em meu coração os amores, fermentam;

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Enquanto eu me chamar saudade

Me levantaria, o relógio marcaria 6:34, usaria aquela colônia, que você me deu no Natal que passamos na casa da Duda, e que você gostava tanto para ir até a padaria comprar os pães doces com cobertura de coco e cerejas. Passaria na banca de jornal, compraria uma revista com temática esquerdista pra mim e seu maço de Marlboro – seu sagrado elixir que roubava nossos dias de mãos dadas. Ao voltar, passaria meu café forte e seco, quase rude, e um chá de camomila, afinal, quando criança vovó sempre me dizia que chá de camomila só não curava osso quebrado, tiro no peito e amor despedaçado.

– Quero ser o contrário de todo os amores que você já teve, Ana. Só me mostra todos os lados da sua alma enquanto eu estiver aqui; enquanto nós estivermos aqui; enquanto for possível e amável.

Daria o play no Jorge Ben, ouviria você reclamado da vizinha do 43 ao fim de cada gole no chá, aquela velha italiana ouviu suas óperas até a madrugada novamente, seriam suas palavras quando eu dissesse que não era tão mal assim, porque jamais se recuperou da morte de seu segundo marido com um infarto fulminante, dois meses após a lua de mel.

– Murilo, volta logo. Saudade já não cabe no meu vocabulário, ou melhor, nunca coube, mas desde que você foi passar três meses na França, pra estudar, meu bem, ah!; já não suporto os domingos de sol sem você pra me acompanhar na rede.

No começo da tarde passaria aquele filme do Wody Allen que nós gostávamos, então pedimos comida mexicana pro almoço, assim o par ou ímpar não precisou decidir quem era o responsável pela louça e pudemos nos arrumar às pressas porque o Marcelo tinha ligado, dizendo que vinha nos visitar.

Eu saía do banho e vi você abrindo uma garrafa de vinho, enchendo sua taça e tomando grandes goles com um silêncio de olhar fugidio a cada gole seco. Algo lhe inquietava; conhecia a mulher que dormia ao meu lado nos últimos dois anos, cinco meses, três dias e mais alguns minutos. Você me abraçou com força, respirando profundamente, te peguei pelos dedos e fomos para o quarto. Encontrei o CD do feito pra acabar, baixei o volume e nos deitamos. Você chorava, silenciosamente, mostrando seu orgulho de mulher endurecida pelos anos.

– Você lembra dessa foto? Foi num feriado, tanto tempo atrás, quando fomos pra um chalé em Paraty; duas malas, alguns baseados, vinho chileno, poesias do Vinicius, MPB e nosso amor, Murilo

– Nunca esqueci Ana. Tenho uma memória nítida do seu cabelo solto, caído nos ombros; fumando um cigarro e segurando a garrafa chilena; de repente você sorriu daquele jeito só seu, ficou linda, gravada na minhas lembranças.

Te abracei forte, com o meu coração retumbando dentro do peito, que era pra você ter certeza de que ninguém nos derrubaria, diria minhas verdades sinceras – quase imbecis – sobre meu amor por você, perguntaria sobre sua infância e você se acalmaria. Acenderíamos um cigarro e faríamos amor até o sol raiar.

– Até quando estaremos aqui?

– Somente enquanto eu me chamar saudade, Ana.

505

Alô? Alô? Eu não sei se o gravador ainda funciona. Há muito tempo eu deixei de usá-lo, lembra? Naquela época que desisti da ideia de ser jornalista ou cronista, de ter minha própria coluna semanal, pra ser lida com um bom café quente. Minha cabeça não tem funcionado, tudo uma bagunça, minha memória é um tremendo borrão, sucessão de closes fora de foco. Eu sempre mentia quando dizia que lia os rótulos, manuais de instruções e toda aquela parafernália, mas nunca foi por mal viu? Minha auto-estima sempre foi péssima, fazia só pra tentar mostrar que eu era melhor, bom pra você. Minha adolescência florescia nessas bobagens. Emborquei conhaque demais, minha língua tá amarga e tem sangue no corredor. Acho que eu caí sobre algumas garrafas da adega.

Acho que desmaiei. Ou cochilei. O relógio da cozinha parou faz alguns meses e eu nunca tive vontade de subir numa cadeira e trocar a pilha. Não, não foi vontade. O tempo já não importa mais, tá tudo errado, TU-DO. Nossa hipocrisia diária, nessa vida sonsa, sem amor, de alma vazia e copo cheio, sempre cheio. Calma. Eu me perdi, não era isso que eu tinha pra dizer. A lua está dissimulada atrás das nuvens. Li que a lua entrou em escorpião. Nunca entendi dessas coisas, desses horóscopos. Aliás, palavra difícil essa. Minha mão tá sangrando e tem um caco grande lá dentro, mas não tá doendo. Só sinto dor por saudade e enxaqueca. A última é crônica e hoje eu apenas convivo com ela. A saudade dói, sabe. Daquilo que foi, do que poderia ser e do que ainda será. O câncer levou minha avó, o Neuroleão se foi e até hoje eu não entendi, meu primo perdi para o crime. E você, minha irmã, amiga, amante, amada, odiada, eu não sei. E por muito tempo tentei entender. Saudade abraça e dói, dói, dói tanto. Nos perdemos todos os dias. Tudo errado, tudo. Vou pausar um pouco, preciso de um pano pra mão sangrenta.

Comprei uma vitrola e os discos dos Beatles. Todos eles. Coloquei ‘Please Please Me’ pra rodar. É o álbum mais romântico deles, só canção linda. Acendi um cigarro, fiz chocolate e misturei com conhaque. Nunca consegui fumar no verão, não sei ao certo, calor e fumaça não combinam, me deixam tonto. Eu tinha largado o cigarro, mas aí teve aquela festa, ficou sabendo? Despedida da Laura e do Tavares, foram morar na Áustria junto das crianças. O Tavares bebeu muito, chorou muito. Já teve lembranças de momentos que nunca viveu? A minha é assim: parque de diversões, roda gigante, criançada correndo, cheiro de algodão doce e pipoca, pequenas lanternas por todo o canto e a voz do Bob Dylan ao fundo. Nunca consigo parar de falar e escrever. Tenho muito pra dizer e sempre acho que você vai saber entender o que eu digo, me dar um bom conselho, dizendo que não é bem assim, e fica tudo uma paz. Esqueci o som engraçado que você faz quando ri, do seu rosto sonolento. Andrea, acho que você virou mais um borrão na minha mente perturbada. Meu CEP é o mesmo, vem me visitar, aprendi a fazer café e uns bolos gostosos. Andrea, volta, vai embora de vez, sem ensaio, como arrancar dente sem anestesia em filme de tragédia. Volta Andrea, volta.

Dias atrás encontrei o Tim. Lembra-se dele? Aquele que afundava o nariz na cocaína. Acabei afundando com ele e gostei, to fazendo todo dia e depois leio Universo em Desencanto. Fico numa tremenda aceleração, querendo fazer tudo ao mesmo tempo, ler, limpar, tocar, ouvir, assistir, dormir, beber e todas essas bobagens. Mas acabo falando e falando sem parar como agora. Um pensamento atrás do outro, numa loucura que provoca náusea. Calma, calma. P-r-e-c-i-s-o m-e a-c-al-m-a-r. Andrea, cansei de todo esse fingimento das nossas vidas, de toda essa imbecilização coletiva, do consumismo falido e das pessoas. Que merda aconteceu conosco? Um grande buraco negro que nos engole todos os dias, sufocando toda a nossa existência todos os dias. Chega, chega, já to velho e continuo sozinho desde que você se foi. Volta Andrea, volta.

Andrea Doria

Da sacada era possível enxergar boa parte das luzes das lâmpadas do velho centro da cidade; era possível ver os fios da rede elétrica cortando a rua de um lado ao outro, enquanto os próprios fios eram cortados num nível mais abaixo pelas cordas dos varais.

Enquanto soltava a fumaça de seu cigarro, Andrea Doria desejava ter alguém para conversar. Porém, há muito tempo apenas movia seus lábios para tragar seus maços de cigarros e engolir seus infindáveis porres de uísque.

No alto de seus 43 anos, Andrea Doria já havia aprendido que não poderia mudar o mundo. Resignada e amargurada compreendeu que o sorriso jocoso, de seu falecido marido, era a única coisa que preenchia todos os espaços vazios de sua alma atormentada. Durante muito tempo tentou buscar Nem outras faces, em outros risos – mesmo que por um instante, por alguns segundos – o espaço que ele preencheu.

O encontrou caído no corredor, já tomado pelo frio da morte. Seu sorriso estava rígido – como um diamante. Derrubou lágrimas em seu corpo pela última vez, sentindo-se dona de uma sorte sagaz, daquelas que fazem os balões das crianças soltarem-se de suas mãos e perderem-se no céu.

Havia vivido pouquíssimo tempo ao lado daquele homem. Mas, foi tempo suficiente, para que ela pudesse compreender a força que ele possuía. Não fazia o menor sentido – na verdade, através de sua alma daltônica, nada jamais fez sentido – que ele tivesse morrido. Agora, ninguém mais abria a porta segurando uma taça de vinho para ela; riria de suas histórias da redação ou mesmo faria cócegas em suas bochechas.  Ele partiu sem despedir-se.

Acendeu seu último cigarro e sentou-se na varada, de costas para a cidade. Sabia que não conseguiria apagar da memória, todos os medos que somente ele soube compreender. Levantou-se, leu seu poema favorito de Poe e pôs o anel de diamantes que ele havia lhe dado.

Acendeu seu último cigarro e tomou mais um gole de seu uísque. Através da varanda viu o sol descendo no horizonte. Subiu no parapeito e deixou uma lágrima cair. Uma saudade devastadora a engoliu, ao mesmo passo que sua pele queimava ao lembrar-se das palavras que disse no casamento: dizer que será para sempre é sentir na pele e querer de verdade.

Andrea Dorea deixou de lutar naquela segunda-feira e saltou da sacada do sétimo andar.

V

E se um dia eu escrever?

Sobre o céu, o cinza, os becos e São Paulo

Você apenas ficaria vermelha ou iria responder?

E se não responder, vou entender e direi: adeus, então.

 

Mas se responder, como tudo iria ser?

Sou rapaz sereno e você moça encantadora

Eu pegaria sua pequena mão e lhe acolheria

Como tudo iria ser?

 

Mas se não responder irei entender

Afinal, sou apenas um pseudopoeta desconhecido

Que daria tudo para ganhar o seu olhar

E o direito de conjugar todos os verbos que quiser

 

E você não respondeu e eu entendi

Que o meu passo lento e riso fraco

Não seria capaz de preencher sua vontade

De pular carnaval do ano novo ao natal

Paquetá

Sou homem criado no interior, acostumado a ouvir o galo cantar toda manhã. Nunca tive sonhos, amigos ou amores. Tudo o que eu tinha era um quarto, o dinheiro dos meus pais e alguns livros. Estive só por muito tempo. Isso mudou quando encontrei Paquetá.

Num sábado em que as crianças comiam algodão doce e os velhos jogavam cartas, enquanto lia meu jornal na praça, eu vi uma moça. Uma linda moça sentada. Lembro-me do castanho de seus cabelos e olhos; da forma como se movia ao cantarolar para o vento; mas, sobretudo, me recordo de seu lindo sorriso.

Após esse sábado meu paletó se enrolou em seu vestido tantas vezes quanto nossos corpos se fundiram. E vivemos um período de momentos inesquecíveis: os jantares a luz de velas; os cafunés que fazia em meu cabelo desgrenhado; nossos planos para o futuro; nosso sublime amor.

Nossa cafeteira quebrou numa manhã gelada e ficamos na cama até mais tarde. Lembro-me da sua expressão de dor ao dizer aquelas palavras e o quanto fiquei perdido ao ouvi-las. Ela disse que foi efêmero e que eu não era o suficiente. Que tudo havia sido uma pausa até o carnaval e que precisava dançar com outros corpos.

Levantou-se calmamente, passou o batom vermelho nos lábios, vestiu o vestido e saiu. Eu apenas fiquei imóvel, sentindo uma profunda dor, pois ela havia desistido de nós.

Ainda sentia o sabor dos seus lábios enquanto olhava nossos sorrisos orgulhosos de amor, estampados em fotos grudadas na parede.  Ela nem mesmo me disse adeus.

Coloquei meu jeans rasgado, meu velho mocassim de couro e uma camiseta cinza. Juntei alguns livros, fotos e meu caderno de poesias numa mochila. Peguei minha bicicleta e sai.

Estou fugindo de Paquetá. Fugindo de você, do meu imenso amor por você. Não consigo mais olhar para trás, afinal, minha felicidade ficou naqueles lençóis, naquelas fotos, na cafeteira quebrada.

Agora vejo nos quatros cantos o seu rosto sorridente nos braços de outros homens. Tudo o que eu tinha ficou naquele quarto azul celeste. E eu gosto tanto de você.

3×4

Meu coração bate aceleradanente, enquanto persegue algo tão distante. O mundo gira como um caleidoscópio e nem mesmo me dá a chance de se sentar.

São tantas tensões e angústias; pequenas como uma foto 3×4, catalogadas num álbum sem fim. E ninguém teva paciência de olhar o álbum todo.

O casulo se fecha. Nada sairá de lá. O álbum vira cinzas.

Segunda-feira

“Eu bebi saudade a semana inteira, pra domingo você me dizer que não sabe o que quer
e não quer mais saber (…)”

Esteban – Segunda-feira

Lembro quando você me disse Charlie: “Eu não troco isso, nós dois, por nada; vou ficar ao seu lado para sempre, Emma”. Também me recordo daquela manhã de segunda-feira, na qual senti falta de mim, quando me lembrei de você.

Olho nossos retratos na parede, onde estampamos nossos sorrisos orgulhosos, e não consigo deixar de ficar triste, infelizmente. Recordo de nossos planos e juras, que projetavam-se para o sempre. Charlie, você está certo quando diz “nossos planos não eram tudo”, afinal, não eram. Havia um doce amor em nossos abraços, beijos e sorrisos. Isso tudo, de tão real e desejado, por nós dois, era quase palpável.

Não tenho dormido nos últimos dias. Minhas dores de cabeça voltaram. Estou confusa.

– “Emma, por favor, entenda. Você acabou com tudo”.

Charlie me responda: se o “nós” era o que havia de mais importante, como pode apagá-lo tão facilmente dos seus dias? Foi tudo tão repentino e agora você me trata como um estranho; nega tudo o que vivemos e o que sentimentos. Aqui, do alto do sétimo andar, longe eu vejo você.

Todos esses amigos, drogas e mulheres que irá conhecer vão lhe trazer uma felicidade momentânea; estarão ao seu lado somente até a página dois. Entretanto, quando envelhecer e perder a sua beleza digna de Ipanema, todos vão te abandonar. Além do mais, jamais saberão como fica bonito ao acordar com seu cabelo bagunçado e amaçado; o quanto é engraçado ao dormir; e até mesmo, como te consolar, quando, suas poucas lágrimas, brotarem e, a dor que carrega no peito, aflorar.

Já não me lembro da intenção da carta. Talvez não tenha intenção alguma, porque não tenho coragem de por seu nome no campo do destinatário.

Você sabe: sempre amei poesia. Sendo assim, acabei por usar palavras demais; perdi contato com o real. Muitas vezes, meus atos, simplesmente, não existiram. E isto foi minando sua paciência. Mas você sabe: não foi intencional. Eu sempre faço tudo errado, quando meu único objetivo, é te fazer sorrir.

Charlie me perdoe por não ter dito, suficientemente, o quanto eu sempre vou te amar.

Adeus. Seja feliz. E lembre-se: vou sempre estar aqui.