Me levantaria, o relógio marcaria 6:34, usaria aquela colônia, que você me deu no Natal que passamos na casa da Duda, e que você gostava tanto para ir até a padaria comprar os pães doces com cobertura de coco e cerejas. Passaria na banca de jornal, compraria uma revista com temática esquerdista pra mim e seu maço de Marlboro – seu sagrado elixir que roubava nossos dias de mãos dadas. Ao voltar, passaria meu café forte e seco, quase rude, e um chá de camomila, afinal, quando criança vovó sempre me dizia que chá de camomila só não curava osso quebrado, tiro no peito e amor despedaçado.

– Quero ser o contrário de todo os amores que você já teve, Ana. Só me mostra todos os lados da sua alma enquanto eu estiver aqui; enquanto nós estivermos aqui; enquanto for possível e amável.

Daria o play no Jorge Ben, ouviria você reclamado da vizinha do 43 ao fim de cada gole no chá, aquela velha italiana ouviu suas óperas até a madrugada novamente, seriam suas palavras quando eu dissesse que não era tão mal assim, porque jamais se recuperou da morte de seu segundo marido com um infarto fulminante, dois meses após a lua de mel.

– Murilo, volta logo. Saudade já não cabe no meu vocabulário, ou melhor, nunca coube, mas desde que você foi passar três meses na França, pra estudar, meu bem, ah!; já não suporto os domingos de sol sem você pra me acompanhar na rede.

No começo da tarde passaria aquele filme do Wody Allen que nós gostávamos, então pedimos comida mexicana pro almoço, assim o par ou ímpar não precisou decidir quem era o responsável pela louça e pudemos nos arrumar às pressas porque o Marcelo tinha ligado, dizendo que vinha nos visitar.

Eu saía do banho e vi você abrindo uma garrafa de vinho, enchendo sua taça e tomando grandes goles com um silêncio de olhar fugidio a cada gole seco. Algo lhe inquietava; conhecia a mulher que dormia ao meu lado nos últimos dois anos, cinco meses, três dias e mais alguns minutos. Você me abraçou com força, respirando profundamente, te peguei pelos dedos e fomos para o quarto. Encontrei o CD do feito pra acabar, baixei o volume e nos deitamos. Você chorava, silenciosamente, mostrando seu orgulho de mulher endurecida pelos anos.

– Você lembra dessa foto? Foi num feriado, tanto tempo atrás, quando fomos pra um chalé em Paraty; duas malas, alguns baseados, vinho chileno, poesias do Vinicius, MPB e nosso amor, Murilo

– Nunca esqueci Ana. Tenho uma memória nítida do seu cabelo solto, caído nos ombros; fumando um cigarro e segurando a garrafa chilena; de repente você sorriu daquele jeito só seu, ficou linda, gravada na minhas lembranças.

Te abracei forte, com o meu coração retumbando dentro do peito, que era pra você ter certeza de que ninguém nos derrubaria, diria minhas verdades sinceras – quase imbecis – sobre meu amor por você, perguntaria sobre sua infância e você se acalmaria. Acenderíamos um cigarro e faríamos amor até o sol raiar.

– Até quando estaremos aqui?

– Somente enquanto eu me chamar saudade, Ana.

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