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Alô? Alô? Eu não sei se o gravador ainda funciona. Há muito tempo eu deixei de usá-lo, lembra? Naquela época que desisti da ideia de ser jornalista ou cronista, de ter minha própria coluna semanal, pra ser lida com um bom café quente. Minha cabeça não tem funcionado, tudo uma bagunça, minha memória é um tremendo borrão, sucessão de closes fora de foco. Eu sempre mentia quando dizia que lia os rótulos, manuais de instruções e toda aquela parafernália, mas nunca foi por mal viu? Minha auto-estima sempre foi péssima, fazia só pra tentar mostrar que eu era melhor, bom pra você. Minha adolescência florescia nessas bobagens. Emborquei conhaque demais, minha língua tá amarga e tem sangue no corredor. Acho que eu caí sobre algumas garrafas da adega.

Acho que desmaiei. Ou cochilei. O relógio da cozinha parou faz alguns meses e eu nunca tive vontade de subir numa cadeira e trocar a pilha. Não, não foi vontade. O tempo já não importa mais, tá tudo errado, TU-DO. Nossa hipocrisia diária, nessa vida sonsa, sem amor, de alma vazia e copo cheio, sempre cheio. Calma. Eu me perdi, não era isso que eu tinha pra dizer. A lua está dissimulada atrás das nuvens. Li que a lua entrou em escorpião. Nunca entendi dessas coisas, desses horóscopos. Aliás, palavra difícil essa. Minha mão tá sangrando e tem um caco grande lá dentro, mas não tá doendo. Só sinto dor por saudade e enxaqueca. A última é crônica e hoje eu apenas convivo com ela. A saudade dói, sabe. Daquilo que foi, do que poderia ser e do que ainda será. O câncer levou minha avó, o Neuroleão se foi e até hoje eu não entendi, meu primo perdi para o crime. E você, minha irmã, amiga, amante, amada, odiada, eu não sei. E por muito tempo tentei entender. Saudade abraça e dói, dói, dói tanto. Nos perdemos todos os dias. Tudo errado, tudo. Vou pausar um pouco, preciso de um pano pra mão sangrenta.

Comprei uma vitrola e os discos dos Beatles. Todos eles. Coloquei ‘Please Please Me’ pra rodar. É o álbum mais romântico deles, só canção linda. Acendi um cigarro, fiz chocolate e misturei com conhaque. Nunca consegui fumar no verão, não sei ao certo, calor e fumaça não combinam, me deixam tonto. Eu tinha largado o cigarro, mas aí teve aquela festa, ficou sabendo? Despedida da Laura e do Tavares, foram morar na Áustria junto das crianças. O Tavares bebeu muito, chorou muito. Já teve lembranças de momentos que nunca viveu? A minha é assim: parque de diversões, roda gigante, criançada correndo, cheiro de algodão doce e pipoca, pequenas lanternas por todo o canto e a voz do Bob Dylan ao fundo. Nunca consigo parar de falar e escrever. Tenho muito pra dizer e sempre acho que você vai saber entender o que eu digo, me dar um bom conselho, dizendo que não é bem assim, e fica tudo uma paz. Esqueci o som engraçado que você faz quando ri, do seu rosto sonolento. Andrea, acho que você virou mais um borrão na minha mente perturbada. Meu CEP é o mesmo, vem me visitar, aprendi a fazer café e uns bolos gostosos. Andrea, volta, vai embora de vez, sem ensaio, como arrancar dente sem anestesia em filme de tragédia. Volta Andrea, volta.

Dias atrás encontrei o Tim. Lembra-se dele? Aquele que afundava o nariz na cocaína. Acabei afundando com ele e gostei, to fazendo todo dia e depois leio Universo em Desencanto. Fico numa tremenda aceleração, querendo fazer tudo ao mesmo tempo, ler, limpar, tocar, ouvir, assistir, dormir, beber e todas essas bobagens. Mas acabo falando e falando sem parar como agora. Um pensamento atrás do outro, numa loucura que provoca náusea. Calma, calma. P-r-e-c-i-s-o m-e a-c-al-m-a-r. Andrea, cansei de todo esse fingimento das nossas vidas, de toda essa imbecilização coletiva, do consumismo falido e das pessoas. Que merda aconteceu conosco? Um grande buraco negro que nos engole todos os dias, sufocando toda a nossa existência todos os dias. Chega, chega, já to velho e continuo sozinho desde que você se foi. Volta Andrea, volta.