Andrea Doria

Da sacada era possível enxergar boa parte das luzes das lâmpadas do velho centro da cidade; era possível ver os fios da rede elétrica cortando a rua de um lado ao outro, enquanto os próprios fios eram cortados num nível mais abaixo pelas cordas dos varais.

Enquanto soltava a fumaça de seu cigarro, Andrea Doria desejava ter alguém para conversar. Porém, há muito tempo apenas movia seus lábios para tragar seus maços de cigarros e engolir seus infindáveis porres de uísque.

No alto de seus 43 anos, Andrea Doria já havia aprendido que não poderia mudar o mundo. Resignada e amargurada compreendeu que o sorriso jocoso, de seu falecido marido, era a única coisa que preenchia todos os espaços vazios de sua alma atormentada. Durante muito tempo tentou buscar Nem outras faces, em outros risos – mesmo que por um instante, por alguns segundos – o espaço que ele preencheu.

O encontrou caído no corredor, já tomado pelo frio da morte. Seu sorriso estava rígido – como um diamante. Derrubou lágrimas em seu corpo pela última vez, sentindo-se dona de uma sorte sagaz, daquelas que fazem os balões das crianças soltarem-se de suas mãos e perderem-se no céu.

Havia vivido pouquíssimo tempo ao lado daquele homem. Mas, foi tempo suficiente, para que ela pudesse compreender a força que ele possuía. Não fazia o menor sentido – na verdade, através de sua alma daltônica, nada jamais fez sentido – que ele tivesse morrido. Agora, ninguém mais abria a porta segurando uma taça de vinho para ela; riria de suas histórias da redação ou mesmo faria cócegas em suas bochechas.  Ele partiu sem despedir-se.

Acendeu seu último cigarro e sentou-se na varada, de costas para a cidade. Sabia que não conseguiria apagar da memória, todos os medos que somente ele soube compreender. Levantou-se, leu seu poema favorito de Poe e pôs o anel de diamantes que ele havia lhe dado.

Acendeu seu último cigarro e tomou mais um gole de seu uísque. Através da varanda viu o sol descendo no horizonte. Subiu no parapeito e deixou uma lágrima cair. Uma saudade devastadora a engoliu, ao mesmo passo que sua pele queimava ao lembrar-se das palavras que disse no casamento: dizer que será para sempre é sentir na pele e querer de verdade.

Andrea Dorea deixou de lutar naquela segunda-feira e saltou da sacada do sétimo andar.

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