Paquetá

Sou homem criado no interior, acostumado a ouvir o galo cantar toda manhã. Nunca tive sonhos, amigos ou amores. Tudo o que eu tinha era um quarto, o dinheiro dos meus pais e alguns livros. Estive só por muito tempo. Isso mudou quando encontrei Paquetá.

Num sábado em que as crianças comiam algodão doce e os velhos jogavam cartas, enquanto lia meu jornal na praça, eu vi uma moça. Uma linda moça sentada. Lembro-me do castanho de seus cabelos e olhos; da forma como se movia ao cantarolar para o vento; mas, sobretudo, me recordo de seu lindo sorriso.

Após esse sábado meu paletó se enrolou em seu vestido tantas vezes quanto nossos corpos se fundiram. E vivemos um período de momentos inesquecíveis: os jantares a luz de velas; os cafunés que fazia em meu cabelo desgrenhado; nossos planos para o futuro; nosso sublime amor.

Nossa cafeteira quebrou numa manhã gelada e ficamos na cama até mais tarde. Lembro-me da sua expressão de dor ao dizer aquelas palavras e o quanto fiquei perdido ao ouvi-las. Ela disse que foi efêmero e que eu não era o suficiente. Que tudo havia sido uma pausa até o carnaval e que precisava dançar com outros corpos.

Levantou-se calmamente, passou o batom vermelho nos lábios, vestiu o vestido e saiu. Eu apenas fiquei imóvel, sentindo uma profunda dor, pois ela havia desistido de nós.

Ainda sentia o sabor dos seus lábios enquanto olhava nossos sorrisos orgulhosos de amor, estampados em fotos grudadas na parede.  Ela nem mesmo me disse adeus.

Coloquei meu jeans rasgado, meu velho mocassim de couro e uma camiseta cinza. Juntei alguns livros, fotos e meu caderno de poesias numa mochila. Peguei minha bicicleta e sai.

Estou fugindo de Paquetá. Fugindo de você, do meu imenso amor por você. Não consigo mais olhar para trás, afinal, minha felicidade ficou naqueles lençóis, naquelas fotos, na cafeteira quebrada.

Agora vejo nos quatros cantos o seu rosto sorridente nos braços de outros homens. Tudo o que eu tinha ficou naquele quarto azul celeste. E eu gosto tanto de você.

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